Poemas Libidinosos VI

 

Soneto inexistente

 

A lua é vigia de quem se perde.

A noite abriga quem se esvai.

A mulher nua apóia quem cai.

A viúva veste-se, agora, de verde.

 

A jogatina inflama o ser.

A bebida finda o viver.

A poesia perde o sabor.

A vida vira, enfim, um terror.

 

A anestesia surte um efeito torto.

A menina perde a inocência.

A mãe pede, ao filho, clemência.

 

A mão toca a luz com aversão.

A cólera invade uma nação.

A humanidade é, agora, um corpo morto.

 

Felipe Fortes

 

Poemas Libidinosos V

 

I

Que mais me posso se não atrever a ti tal pensamento?

Sou desmedido, mas franco e iluminado –

Ainda me falta a carne que irá sorvê-la,

Que penetrará em teu colo domesticado...

 

II

Tua saia, em tons resplandecentes d’um verde qualquer,

Figura as curvas que custa a esconder de minha vista;

E, assim, desejando-a em cada segundo olhado,

Movo-me e sigo a tocar-lhe – mesmo que isso seja pecado.

 

III

Mãos! Que mãos! Suadas e sujas de frutas silvestres...

São ímpares – cada qual em tua forma reluzente;

Tocam as flores e frutas e sementes...

E a cada movimento me deixam atiçado, louco...

 

IV

Joelhos dobrados em ângulo pulsante.

(E que desejo de vê-los à frente de meu tronco,

implorando que rasgue meus desnudos dedos a tocá-los

sem pudor, sem temor, sem rancor; sem amor...).

 

V

Os olhos,

Que seguem-me a cada traço

Observado, exalam alguma estranha beleza;

Inebriam-me tão ferozmente que congelam os atos baixos

E elevam-me ao pensamento descontente de ser alguém tão vil, profano...

Sugestionam alguma coisa estranha – não consigo decifrar;

Mas lecionam a arte tola de uma amante sã,

De alguém sem pecados,

Sem divã...

 

VI

Pêlos.

Todos claros.

Todos em mosaico vespertino.

Despertados pelo toque fálico,

Deixam os deuses do mundo entorpecidos.

E aquilo tudo feito à mão é sagrado!

Não há no horizonte nada mais temido:

Abaixo, o infindo crepúsculo dos deuses;

Acima, e bem próximos, os vales da perdição.  

 

VII

Um só momento: quando unem-se os lábios, e as gotas de trabalho caem,

Toda a espinha treme, geme, saboreia o torpor alado!

 

VII

Pernas são munidas de inocência.

Tal como são, tal como desejam ser,

Inebriam um pedaço qualquer a crescer

E arquejar um movimento não pensado.

 

VIII

Os pés, os libidinosos pés!

Ligados aos livros de Aquiles,

Sustentam o aprazível estado da natureza viva.

 

IX

Qual cintura não irá deparar-se ante a essa?

Tão delgada...

E lisa e leve,

Toda ela embebida na alvura fresca do temor

Das carícias e dos caprichos.

É linda...

E possuída

De beleza clássica.

Terminantemente uma vida de viagem!

 

X

Tua junção de mente e coração.

Um ponto enraizado no matiz do corpo nu.

Quando à mostra,

Expõe o colo esvaecido no pano secante,

Denota as ligaduras entre mãos, braços e troncos;

Indaga-nos do que seria real.

 

XI

No desbravar deste novo continente,

Suor e frio, calor e secura,

Todas as formas puras e impuras,

Tomarão conta da razão imponente.

 

XII

Estou sem carne, ainda.

E só posso tocá-la em minha mente.

 

Felipe Fortes

Poemas Libidinosos IV


A rocha

 

Era firme e segura de si.

Pendia entre o medo e a angústia

Quando notava-se em uma mão

Seca, ardente em raiva.

E em notória acepção de suas energias

Construía uma condição neutra,

Singela e silenciosa. Era calma e retraída.

Surgia nas marés, nas tormentas,

Nas enxurradas; surgia do nada.

Encontrava-se sempre quieta,

Amparada pelo silêncio da inércia.

 

Postulava uma pose inigualável.

 

Quando tomada de sua quietude,

Era uma fera indomada.

Rasgava o vento, o tempo, o momento.

E quebrava as coisas sem arrependimento;

Mas não fazia isso sozinha.

Era própria na placidez do existir.

Desejava construir uma história,

Mas não pensava, não desejava;

Já fora encosto de morto,

De lamurias, de corpo enxoto.

Ou prestou-se a morder lascas

Em tantas viagens sem direção.

Era incômoda quando em excesso de si.

Em sua grandeza,

Era dividida em partes tantas

Que não se reconhecia...

Como se o mundo a quisesse,

Mas não a entendesse.

Como se o mundo a dividisse

Para não mais ater-se em suas representações.

Era firme, sólida, maciça...

 

Mas não era completa.

 

Felipe Fortes

Poemas Libidinosos III


A disfunção de um sentimento

 

Quanto à razão dos atos,

E suas virtudes,

Não se inicia um louco amar assim.

Tem de ser feito um pacto,

Um feito insano de junção das verdades

Em detrimento das infames condições

Impostas por nossas ficcionais alusões.

 

Mas deve-se manter o pacto intocável.

 

E acreditar na demasiada injúria,

Reconhecida em posses diversas,

É um passo dado ao caminho insolente

– Seria demais esperar, enfim,

Por uma justificativa do medo de união

Com a mistura de conquista e sedução,

Seguida de desprezo e anulação;

Somos a covarde irradiação de vergonha,

A reles do esquecimento quando usamos

Outros sentimentos para a nossa ação.

 

O amor louco e insano não é puro,

Não é paisagem tranqüilizadora,

Nem tampouco é um porto seguro.

É algo inaceitável, pois, aos olhos humanos,

Ao tocável sentimento lírico romântico.

É a definição implícita de formas obscuras

E de desejos cujas vidas são à espera da queda alheia,

Da derrota do próximo...

É um pretérito imperfeito,

Perdido e surpreso quando está a ser lido;

Causa dor e rancor quando é percebido,

E perde-se quando está sendo vencido.

 

Mas deve-se manter o pacto intocável.

 

Quando se ama loucamente,

A dor vai embora,

E a dormência se faz presente...

E a sensatez se evapora

E a mesquinhez toma seu posto,

Uma vez que o pacto se mantém,

Todos os amantes, todos os amados,

Todos os que aqui estão

São feitos de tolos e mantidos na câmara sem música,

Sem vida e sem sentido.

 

Mas deve-se manter o pacto intocável.

 

No silêncio, um súbito movimento.

Algumas flores estão a crescer na mente.

Há cores, sabores... Há gente.

Mas, ainda, fazem-se presos os dentes

Aos lábios serrados, grudados e insolúveis.

O louco amor atinge seu apogeu...

           

            E o pacto manteve-se até o fim...

 

Felipe Fortes
Poemas Libidinosos II


Do lascivo humor romântico, um poema

 

Um palmo de rosa em um sopro de vela.

Um laço simbólico, um olhar de tua janela.

Uma palma, uma fração de gesto molhado;

(Ou uma rima de corpos neste espaço medrado?).

Uma música reluz à alma sólida e gélida;

Mais um sopro conduz meu ego que a espera.

 

Em tua cama, deitado, pés e mãos amarrados.

Os pés sentem o frio, e a mão, ainda, o vazio.

Teu corpo tão desejado, desejado ardentemente,

Só se faz notar no assombro da rouquidão insolente.

 

E ele chega num sopro, num giro rápido do porvir;

Chega ao repente da mente, no tempo entre pensar e agir.

Chega ocupando espaço, completando as lacunas

E medindo meu corpo com a boca e lábios, labor e curvas.

 

Toco-lhe...

E sinto algo, como um novato, como um lobo voraz!

É um frescor amaldiçoado pela carne

E bendito, bendito seja ele que me possua!

Pois calo-me de tanto pensar em como me terás;

Calo-me a gemer algo que se torna alto e ressoa, ressoa...

 

Suor e pele se misturam aos toques e carícias,

E mais e mais os beijos perdem a inocência.

Completando-se com força e malícia,

Os vazios se enchem se encontram se tateiam.

Sem pausa, alucinadamente, invadem a emoção.

Calam-se, enfim...

 

Num silêncio desmedido, algo está acontecendo...

As peles, em plena unidade, não mais se movem.

As bocas estão secas, pobres...

Apenas latem os corações rebeldes,

Em passos largos e suntuosos

Em direção ao abismo da intermitência mundana.

 

Felipe Fortes

Poemas Libidinosos I


Elogio à discussão da força humana

 

Reinam, então, os mais fortes?

E quem terá dito isso, então?

Sozinhos, são pobres e pecadores.

Pedintes, são vorazes e usurpadores;

Vistos assim – que coisa... –

São males de tão pouca beleza.

São bucólicos demais – ingênuos

Baluartes em demonstração.

São os que todos esperam

Depositar uma incredulidade

Assaz significativa de existência;

São mórbidos e lapidados,

Peçonhentos e aleivosos,

Representam o mínimo divisor

De qualquer parte mínima

De qualquer sapiência sólida

De qualquer sucoso furor.

São os que partem, sempre, solitários.

E seguem caminhos translúcidos

Em oblíquas escolhas da alma;

São os que enxergam raivosas verdades

Em pífias razões; são pródigos

Das maleficências

E dos preâmbulos esquerdistas,

Cujos estribos não assumem

Nenhuma posição de ataque

(Mas assinam a proposição

De quem detesta a verdade).

São os que assistem a um mundo

Imaculado

Tão vertiginoso...

Tão menosprezível...

Um mundo de apatia e alvura!

São fortes, sim! Mas na negação

De um embate solene entre razão

E sentimentalismo...

São pobres seres que vivem em vão.

São os que da vida, enfim,

Não se espera alguma ligação.

São os que se fazem

De uma pequenez em sua forma real,

Sem distinção de qualquer parte

Formadora de sua essência,

Sem prevaricar a insolência

De qualquer sabida nota verbal

Que canta esta lima de espírito,

Que suscita algo de destemperado

Em algo jamais percebido.

São os que em pequenos laços

Demarcam o ir e vir do caminho,

Do passado, presente e futuro,

Que se esmeram no porvir

De um labor infindo...

São os que morrem receosos,

Sem conhecer o amor vivido,

Sem jurar um só verso.

São os fortes – mas, também, os vencidos.

 

Felipe Fortes

Curto poema XIV


A jaula

 

A jaula é tão morta quanto torta,

E estranhamente se basta de silêncio;

Divide o que de fora não se mostra

Ao que de dentro se faz relento –

E numa atenção despercebida,

Como relapsos já ambíguos

De suas prevaricações,

É perdida em tua exígua dimensão;

Morta e torta e minuta é tua exatidão.

 

Separa-se em cantos quadrados

Que sugerem um açoite nos sonhos

Quando pensamos...

E quando sonhamos,

Não nos deixa pensar.

 

É o que ela faz

Quando caímos em seus

Pequenos metros,

Em sua lisa forma angular.

 

Felipe Fortes

 

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