Soneto inexistente
A lua é vigia de quem se perde.
A noite abriga quem se esvai.
A mulher nua apóia quem cai.
A viúva veste-se, agora, de verde.
A jogatina inflama o ser.
A bebida finda o viver.
A poesia perde o sabor.
A vida vira, enfim, um terror.
A anestesia surte um efeito torto.
A menina perde a inocência.
A mãe pede, ao filho, clemência.
A mão toca a luz com aversão.
A cólera invade uma nação.
A humanidade é, agora, um corpo morto.
Felipe Fortes
I
Que mais me posso se não atrever a ti tal pensamento?
Sou desmedido, mas franco e iluminado –
Ainda me falta a carne que irá sorvê-la,
Que penetrará em teu colo domesticado...
II
Tua saia, em tons resplandecentes d’um verde qualquer,
Figura as curvas que custa a esconder de minha vista;
E, assim, desejando-a em cada segundo olhado,
Movo-me e sigo a tocar-lhe – mesmo que isso seja pecado.
III
Mãos! Que mãos! Suadas e sujas de frutas silvestres...
São ímpares – cada qual em tua forma reluzente;
Tocam as flores e frutas e sementes...
E a cada movimento me deixam atiçado, louco...
IV
Joelhos dobrados em ângulo pulsante.
(E que desejo de vê-los à frente de meu tronco,
implorando que rasgue meus desnudos dedos a tocá-los
sem pudor, sem temor, sem rancor; sem amor...).
V
Os olhos,
Que seguem-me a cada traço
Observado, exalam alguma estranha beleza;
Inebriam-me tão ferozmente que congelam os atos baixos
E elevam-me ao pensamento descontente de ser alguém tão vil, profano...
Sugestionam alguma coisa estranha – não consigo decifrar;
Mas lecionam a arte tola de uma amante sã,
De alguém sem pecados,
Sem divã...
VI
Pêlos.
Todos claros.
Todos em mosaico vespertino.
Despertados pelo toque fálico,
Deixam os deuses do mundo entorpecidos.
E aquilo tudo feito à mão é sagrado!
Não há no horizonte nada mais temido:
Abaixo, o infindo crepúsculo dos deuses;
Acima, e bem próximos, os vales da perdição.
VII
Um só momento: quando unem-se os lábios, e as gotas de trabalho caem,
Toda a espinha treme, geme, saboreia o torpor alado!
VII
Pernas são munidas de inocência.
Tal como são, tal como desejam ser,
Inebriam um pedaço qualquer a crescer
E arquejar um movimento não pensado.
VIII
Os pés, os libidinosos pés!
Ligados aos livros de Aquiles,
Sustentam o aprazível estado da natureza viva.
IX
Qual cintura não irá deparar-se ante a essa?
Tão delgada...
E lisa e leve,
Toda ela embebida na alvura fresca do temor
Das carícias e dos caprichos.
É linda...
E possuída
De beleza clássica.
Terminantemente uma vida de viagem!
X
Tua junção de mente e coração.
Um ponto enraizado no matiz do corpo nu.
Quando à mostra,
Expõe o colo esvaecido no pano secante,
Denota as ligaduras entre mãos, braços e troncos;
Indaga-nos do que seria real.
XI
No desbravar deste novo continente,
Suor e frio, calor e secura,
Todas as formas puras e impuras,
Tomarão conta da razão imponente.
XII
Estou sem carne, ainda.
E só posso tocá-la em minha mente.
Felipe Fortes
A rocha
Era firme e segura de si.
Pendia entre o medo e a angústia
Quando notava-se em uma mão
Seca, ardente em raiva.
E em notória acepção de suas energias
Construía uma condição neutra,
Singela e silenciosa. Era calma e retraída.
Surgia nas marés, nas tormentas,
Nas enxurradas; surgia do nada.
Encontrava-se sempre quieta,
Amparada pelo silêncio da inércia.
Postulava uma pose inigualável.
Quando tomada de sua quietude,
Era uma fera indomada.
Rasgava o vento, o tempo, o momento.
E quebrava as coisas sem arrependimento;
Mas não fazia isso sozinha.
Era própria na placidez do existir.
Desejava construir uma história,
Mas não pensava, não desejava;
Já fora encosto de morto,
De lamurias, de corpo enxoto.
Ou prestou-se a morder lascas
Em tantas viagens sem direção.
Era incômoda quando em excesso de si.
Em sua grandeza,
Era dividida em partes tantas
Que não se reconhecia...
Como se o mundo a quisesse,
Mas não a entendesse.
Como se o mundo a dividisse
Para não mais ater-se em suas representações.
Era firme, sólida, maciça...
Mas não era completa.
Felipe Fortes
A disfunção de um sentimento
Quanto à razão dos atos,
E suas virtudes,
Não se inicia um louco amar assim.
Tem de ser feito um pacto,
Um feito insano de junção das verdades
Em detrimento das infames condições
Impostas por nossas ficcionais alusões.
Mas deve-se manter o pacto intocável.
E acreditar na demasiada injúria,
Reconhecida em posses diversas,
É um passo dado ao caminho insolente
– Seria demais esperar, enfim,
Por uma justificativa do medo de união
Com a mistura de conquista e sedução,
Seguida de desprezo e anulação;
Somos a covarde irradiação de vergonha,
A reles do esquecimento quando usamos
Outros sentimentos para a nossa ação.
O amor louco e insano não é puro,
Não é paisagem tranqüilizadora,
Nem tampouco é um porto seguro.
É algo inaceitável, pois, aos olhos humanos,
Ao tocável sentimento lírico romântico.
É a definição implícita de formas obscuras
E de desejos cujas vidas são à espera da queda alheia,
Da derrota do próximo...
É um pretérito imperfeito,
Perdido e surpreso quando está a ser lido;
Causa dor e rancor quando é percebido,
E perde-se quando está sendo vencido.
Mas deve-se manter o pacto intocável.
Quando se ama loucamente,
A dor vai embora,
E a dormência se faz presente...
E a sensatez se evapora
E a mesquinhez toma seu posto,
Uma vez que o pacto se mantém,
Todos os amantes, todos os amados,
Todos os que aqui estão
São feitos de tolos e mantidos na câmara sem música,
Sem vida e sem sentido.
Mas deve-se manter o pacto intocável.
No silêncio, um súbito movimento.
Algumas flores estão a crescer na mente.
Há cores, sabores... Há gente.
Mas, ainda, fazem-se presos os dentes
Aos lábios serrados, grudados e insolúveis.
O louco amor atinge seu apogeu...
E o pacto manteve-se até o fim...
Do lascivo humor romântico, um poema
Um palmo de rosa em um sopro de vela.
Um laço simbólico, um olhar de tua janela.
Uma palma, uma fração de gesto molhado;
(Ou uma rima de corpos neste espaço medrado?).
Uma música reluz à alma sólida e gélida;
Mais um sopro conduz meu ego que a espera.
Em tua cama, deitado, pés e mãos amarrados.
Os pés sentem o frio, e a mão, ainda, o vazio.
Teu corpo tão desejado, desejado ardentemente,
Só se faz notar no assombro da rouquidão insolente.
E ele chega num sopro, num giro rápido do porvir;
Chega ao repente da mente, no tempo entre pensar e agir.
Chega ocupando espaço, completando as lacunas
E medindo meu corpo com a boca e lábios, labor e curvas.
Toco-lhe...
E sinto algo, como um novato, como um lobo voraz!
É um frescor amaldiçoado pela carne
E bendito, bendito seja ele que me possua!
Pois calo-me de tanto pensar em como me terás;
Calo-me a gemer algo que se torna alto e ressoa, ressoa...
Suor e pele se misturam aos toques e carícias,
E mais e mais os beijos perdem a inocência.
Completando-se com força e malícia,
Os vazios se enchem se encontram se tateiam.
Sem pausa, alucinadamente, invadem a emoção.
Calam-se, enfim...
Num silêncio desmedido, algo está acontecendo...
As peles, em plena unidade, não mais se movem.
As bocas estão secas, pobres...
Apenas latem os corações rebeldes,
Em passos largos e suntuosos
Em direção ao abismo da intermitência mundana.
Felipe Fortes
Elogio à discussão da força humana
Reinam, então, os mais fortes?
E quem terá dito isso, então?
Sozinhos, são pobres e pecadores.
Pedintes, são vorazes e usurpadores;
Vistos assim – que coisa... –
São males de tão pouca beleza.
São bucólicos demais – ingênuos
Baluartes em demonstração.
São os que todos esperam
Depositar uma incredulidade
Assaz significativa de existência;
São mórbidos e lapidados,
Peçonhentos e aleivosos,
Representam o mínimo divisor
De qualquer parte mínima
De qualquer sapiência sólida
De qualquer sucoso furor.
São os que partem, sempre, solitários.
E seguem caminhos translúcidos
Em oblíquas escolhas da alma;
São os que enxergam raivosas verdades
Em pífias razões; são pródigos
Das maleficências
E dos preâmbulos esquerdistas,
Cujos estribos não assumem
Nenhuma posição de ataque
(Mas assinam a proposição
De quem detesta a verdade).
São os que assistem a um mundo
Imaculado
Tão vertiginoso...
Tão menosprezível...
Um mundo de apatia e alvura!
São fortes, sim! Mas na negação
De um embate solene entre razão
E sentimentalismo...
São pobres seres que vivem em vão.
São os que da vida, enfim,
Não se espera alguma ligação.
São os que se fazem
De uma pequenez em sua forma real,
Sem distinção de qualquer parte
Formadora de sua essência,
Sem prevaricar a insolência
De qualquer sabida nota verbal
Que canta esta lima de espírito,
Que suscita algo de destemperado
Em algo jamais percebido.
São os que em pequenos laços
Demarcam o ir e vir do caminho,
Do passado, presente e futuro,
Que se esmeram no porvir
De um labor infindo...
São os que morrem receosos,
Sem conhecer o amor vivido,
Sem jurar um só verso.
São os fortes – mas, também, os vencidos.
Felipe Fortes
A jaula
A jaula é tão morta quanto torta,
E estranhamente se basta de silêncio;
Divide o que de fora não se mostra
Ao que de dentro se faz relento –
E numa atenção despercebida,
Como relapsos já ambíguos
De suas prevaricações,
É perdida em tua exígua dimensão;
Morta e torta e minuta é tua exatidão.
Separa-se em cantos quadrados
Que sugerem um açoite nos sonhos
Quando pensamos...
E quando sonhamos,
Não nos deixa pensar.
É o que ela faz
Quando caímos em seus
Pequenos metros,
Em sua lisa forma angular.
Felipe Fortes
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